Normalmente, quando cuidamos de alguma coisa e a consideramos importante nos informamos para tomarmos as melhores decisões acerca dela. Por exemplo, quase toda a gente cuida muito da própria saúde. Hoje em dia, gastamos muito dinheiro em medicamentos ou comida saudável, e os seguros de saúde são muito procurados para acrescentarmos uma ulterior proteção àquela que nos é fornecida pelo Estado. Semelhantemente, cuidamos muito da nossa instrução, do bem estar das nossas famílias e até dos nossos animais de estimação.
O que me espanta é que concentramos tanto as nossas energias, atenções e recursos financeiros na saúde, na educação, na família, no lazer etc. e descuidamos de uma forma tão grosseira a nossa relação com Deus. Falando de religião com as pessoas, às vezes ouvi dizer: «esta é a religião que me foi dada pela minha família e é com esta que quero viver e morrer». Não entendo muito bem esta resposta. Se estivesse em causa uma doença, provavelmente procuraríamos o médico mais competente, ouviríamos conselhos de outras pessoas, faríamos pesquisas na internet e até chegaríamos a ir num hospital noutro país se este fosse a nossa única solução. Todavia, quando se fala da saúde, digamos, da nossa alma, consideramos suficiente e certeira a solução herdada acriticamente dos nossos pais ou do meio social em que estamos inseridos.
Faz algum sentido? Parece-me que não. Se a vida eterna e a nossa alma valem mais do que a vida terrena e o nosso corpo, então por que razão somos tão exigentes com as duas últimas e tão desleixados com as duas primeiras? Por que nos contentamos com o que a nossa mãe acreditava, e antes dela a nossa avó e, antes dela, a nossa bisavó e assim por diante? A passagem de uma crença de geração a geração não é suficiente para a tornar verdadeira, não é verdade?
O facto é que algumas pessoas acham que ter fé é aceitar dogmaticamente uma crença, seja esta qual for, e que Deus se contente com isso. Eu detesto esta ideia. Acho que somos pessoas racionais, que Deus nos deu a capacidade de pensar, de analisar e refletir, e portanto devemos usar esta capacidade mesmo na nossa escolha de acreditar ou não acreditar numa mensagem religiosa. Eu não tenho medo de analisar crítica e historicamente a mensagem de Jesus Cristo, porque acredito na sua veracidade e considero que a verdade é bastante forte para não desmoronar diante das críticas de tipo intelectual e das investigações históricas
Outra atitude desleixada que vejo muitas vezes no âmbito cristão é a de acreditarmos no cristianismo sem nunca ter investigado na Bíblia o que o cristianismo é. Infelizmente, muito do que nós advertimos como cristianismo não passa de criações culturais que se afirmaram completamente fora da mensagem bíblica originária. Para detectar a diferença entre a mensagem cristã verdadeira e uma incrustação histórica sucessiva não é necessária uma licenciatura em teologia: pode ser suficiente uma leitura atenta e honesta do Novo Testamento.
Pensem nisso: se você recorre a um advogado para se defender num processo, você espera que este profissional do direito apresente uma defesa baseada na legislação vigente. Se este advogado preparar a sua defesa utilizando estranhas ideias ouvidas algures e opiniões pessoais, a coisa melhor que você pode fazer é mudar imediatamente de advogado. A mesma coisa passa-se com a religião cristã: se partirmos do princípio que a Bíblia é, digamos, a “Constituição” do cristianismo, então será lógico procurar nela as suas verdades fundamentais, básicas e inalteráveis. Só desta forma poderemos reconhecer o que é verdadeiramente «palavra de Deus» e o que são meras ideias humanas. A nossa relação com Deus terá os alicerces na “legislação vigente”, por assim dizer, e não naquilo que nós pensamos seja a verdade.
Eu não sou nenhum perito nestes assuntos, e portanto não tenho legitimidade para ensinar. Apesar disso, permitam-me deixar aqui uma dica que fez toda a diferença na minha vida: todos somos desleixados com algumas coisas. Eu o sou, e não pouco, no vestuário, na arrumação da casa, na organização da minha atividade profissional, só para citar alguns exemplos. Todavia, se deve ser desleixado nalguma coisa na sua vida, não o seja na sua religião, porque nada na vida – nem a família, nem a carreira nem a sua saúde ou outra coisa qualquer – vale quanto a sua relação com Deus ou com o Seu Filho Jesus Cristo. Ponha isto em primeiro lugar e procure a verdade na Palavra de Deus, não confiando cegamente no que alguém, um dia, lhe disse ser a verdade.