Hoje em dia, «dívida» e défice» devem ser as palavras mais
ouvidas, escritas e lidas em Portugal e na maior parte dos países do Sul da
Europa. Uma conjugação de más circunstâncias macroeconómicas e de políticas
irresponsáveis levou tanto as entidades públicas quanto as privadas a acumular
dívidas incomportáveis, que, no entender de muitos economistas e fiscalistas,
nunca poderão ser integralmente pagas. E o que é mais frustrante nesta situação
é a aparente irrelevância dos esforços que muitos de nós estão atualmente a
fazer. A cada ano vemos a nossa situação económica deteriorar-se, enquanto o
défice se mantém em percentagens elevadas e a dívida pública chega até a
engrossar-se.
Além disso, esta criação de relações assimétricas entre
credores e devedores está a transportar a Europa, que achávamos tão pacífica e
encaminhada para uma maior unidade, para uma situação de conflito entre o norte
rico e abastado, de um lado, e o sul pobre e endividado, do outro. A dívida
cria no primeiro leque de países um sentimento de superioridade moral e o
ressurgimento de atitudes nacionalistas por parte de quem não quer ser
solidário; no sul, pelo contrário, fomenta radicalismos alimentados pela
humilhação de quem perdeu a sua soberania financeira e está condenado a
terríveis sacrifícios que, provavelmente, nunca darão os resultados esperados.
Como sair desta situação? Não sou economista nem percebo
muito de finanças, mas imagino que um dia, provavelmente, um perdão clemente
das nossas dívidas, fruto dos erros do passado, poderá reequilibrar a situação
e, espero, educar-nos para que nunca mais permitamos tamanho descalabro das
nossa contas públicas e privadas.
Na nossa relação com Deus, muitas vezes vivemos uma situação
análoga. Os nossos pecados são dívidas para com Deus. Separam-nos Dele, obrigam
Deus a afastar-se de nós e criam em nós um sentimento de perene desconfiança
para com um Deus que vemos como credor inflexível. Como podemos amar a Deus
nesta situação? Como podemos estar em paz?
Todas as religiões ensinam que uma boa dose de austeridade
espiritual, sob forma de práticas religiosas, boas obras, peregrinações,
ofertas de dinheiro etc. nos levará um dia a saldar as dívidas e, finalmente,
ter paz com o nosso Criador. Contudo, Deus, na Sua palavra, transmitiu-nos uma
mensagem bem-diferente. Com efeito, pela boca do Apóstolo Paulo, Deus declara
que «Não há ninguém que seja justo.
Ninguém. Não ninguém que compreenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos
andam fora do caminho e se perdem. Não há quem faça o bem. Nem um só» (Carta
aos Romanos, 3:10-12).
Em termos económico-financeiro-espirituais, quer isto dizer
que toda a nossa austeridade espiritual e os nossos esforços pouco ou nada
valem. Queremos ser justificados pelos nossos sacrifícios, mas diante de Deus a
nossa dívida insustentável nos qualifica como pecadores/devedores. O que fazer
então? Estamos assim tão sem esperança?
Na realidade, as nações podem bem recusar-se a conceder uma
reestruturação das nossas dívidas, os bancos podem ser inflexíveis no pagamento
dos empréstimos e os credores internacionais podem retaliar contra o nosso
incumprimento não nos emprestando nem mais um euro. Mas Deus é diferente. Pela
sua bondade, Ele decidiu perdoar toda a dívida a quem puser a sua confiança no
Seu Filho, que, morrendo na cruz, pagou o preço de todos os nossos pecados. A
Bíblia diz: «Deus faz com que as pessoas
sejam justificadas por meio da fé em Jesus Cristo. É assim para todos os que creem
em Jesus Cristo, sem haver diferença de pessoas» (Romanos: 3:22).
Esta é a maravilhosa graça de Deus, concedida gratuitamente
pela nossa fé em Jesus. É o mais incrível haircut de dívidas jamais
realizado, a mais maravilhosa reestruturação e reescalonamento que possamos
imaginar, o mais inefável perdão fiscal de que haja memória. O que ganhamos com
isso não é um simples retorno à nossa soberania financeira, mas sim a
possibilidade de sermos reconciliados com Deus, estarmos em paz com Ele, termos
uma vida com sentido e propósito, e passarmos a eternidade na sua gloriosa presença.