martedì 8 aprile 2014

Dívida, austeridade e graça


Hoje em dia, «dívida» e défice» devem ser as palavras mais ouvidas, escritas e lidas em Portugal e na maior parte dos países do Sul da Europa. Uma conjugação de más circunstâncias macroeconómicas e de políticas irresponsáveis levou tanto as entidades públicas quanto as privadas a acumular dívidas incomportáveis, que, no entender de muitos economistas e fiscalistas, nunca poderão ser integralmente pagas. E o que é mais frustrante nesta situação é a aparente irrelevância dos esforços que muitos de nós estão atualmente a fazer. A cada ano vemos a nossa situação económica deteriorar-se, enquanto o défice se mantém em percentagens elevadas e a dívida pública chega até a engrossar-se.
Além disso, esta criação de relações assimétricas entre credores e devedores está a transportar a Europa, que achávamos tão pacífica e encaminhada para uma maior unidade, para uma situação de conflito entre o norte rico e abastado, de um lado, e o sul pobre e endividado, do outro. A dívida cria no primeiro leque de países um sentimento de superioridade moral e o ressurgimento de atitudes nacionalistas por parte de quem não quer ser solidário; no sul, pelo contrário, fomenta radicalismos alimentados pela humilhação de quem perdeu a sua soberania financeira e está condenado a terríveis sacrifícios que, provavelmente, nunca darão os resultados esperados.
Como sair desta situação? Não sou economista nem percebo muito de finanças, mas imagino que um dia, provavelmente, um perdão clemente das nossas dívidas, fruto dos erros do passado, poderá reequilibrar a situação e, espero, educar-nos para que nunca mais permitamos tamanho descalabro das nossa contas públicas e privadas.
Na nossa relação com Deus, muitas vezes vivemos uma situação análoga. Os nossos pecados são dívidas para com Deus. Separam-nos Dele, obrigam Deus a afastar-se de nós e criam em nós um sentimento de perene desconfiança para com um Deus que vemos como credor inflexível. Como podemos amar a Deus nesta situação? Como podemos estar em paz?
Todas as religiões ensinam que uma boa dose de austeridade espiritual, sob forma de práticas religiosas, boas obras, peregrinações, ofertas de dinheiro etc. nos levará um dia a saldar as dívidas e, finalmente, ter paz com o nosso Criador. Contudo, Deus, na Sua palavra, transmitiu-nos uma mensagem bem-diferente. Com efeito, pela boca do Apóstolo Paulo, Deus declara que «Não há ninguém que seja justo. Ninguém. Não ninguém que compreenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos andam fora do caminho e se perdem. Não há quem faça o bem. Nem um só» (Carta aos Romanos, 3:10-12).
Em termos económico-financeiro-espirituais, quer isto dizer que toda a nossa austeridade espiritual e os nossos esforços pouco ou nada valem. Queremos ser justificados pelos nossos sacrifícios, mas diante de Deus a nossa dívida insustentável nos qualifica como pecadores/devedores. O que fazer então? Estamos assim tão sem esperança?
Na realidade, as nações podem bem recusar-se a conceder uma reestruturação das nossas dívidas, os bancos podem ser inflexíveis no pagamento dos empréstimos e os credores internacionais podem retaliar contra o nosso incumprimento não nos emprestando nem mais um euro. Mas Deus é diferente. Pela sua bondade, Ele decidiu perdoar toda a dívida a quem puser a sua confiança no Seu Filho, que, morrendo na cruz, pagou o preço de todos os nossos pecados. A Bíblia diz: «Deus faz com que as pessoas sejam justificadas por meio da fé em Jesus Cristo. É assim para todos os que creem em Jesus Cristo, sem haver diferença de pessoas» (Romanos: 3:22).
Esta é a maravilhosa graça de Deus, concedida gratuitamente pela nossa fé em Jesus. É o mais incrível haircut de dívidas jamais realizado, a mais maravilhosa reestruturação e reescalonamento que possamos imaginar, o mais inefável perdão fiscal de que haja memória. O que ganhamos com isso não é um simples retorno à nossa soberania financeira, mas sim a possibilidade de sermos reconciliados com Deus, estarmos em paz com Ele, termos uma vida com sentido e propósito, e passarmos a eternidade na sua gloriosa presença.