Depois dos trágicos acontecimentos de Paris, muitas pessoas,
inclusive do mundo religioso, atribuíram a responsabilidade destes atos
sangrentos ao fanatismo (ou fundamentalismo religioso). Apesar de esta
afirmação ser em parte verdadeira, acredito que falha em não perceber a
essência do problema.
Lendo o Púbico, aprendi esta semana que o termo «fanático», na
origem, se referia a «aqueles que saem do templo inspirados por um Deus
furioso» (Rui Tavares – O Fanatismo, 12 jan. 2015). Ora, o âmago do problema da
violência religiosa a alastrar pelo nosso mundo não reside no fervor destes
fiéis entusiastas, mas, sim, no Deus que escolheram servir: um Deus furioso.
Deixe-me apresentar-lhe o meu Deus, que encontra na pessoa
histórica de Jesus Cristo o seu rosto e a sua imagem perfeita. Este é um Deus gracioso. De facto, era Deus, mas viveu
como o mais humilde dos humildes; tinha o direito de julgar os pecadores, mas
antes os perdoava e oferecia uma vida nova; não tirava a vida aos vivos, mas a
devolvia aos mortos; não feria, mas antes curava qualquer doença; não agia como
um poder tenebroso e ameaçador, mas derrubava o poder das forças do mal e
deixava resplandecer a luz do seu maravilhoso Reino; era insultado, mas não
respondia insultando; era ameaçado, mas oferecia esperança; era desprezado por
muitos, mas valorizava toda a pessoa; tinha poder para destruir os seres humanos,
mas preferiu morrer por eles, para assim pagar o preço de todos os seus pecados
e os reconciliar com Deus Pai.
Este é o meu Deus, um Deus gracioso. Não tenho receio de ser
fanático deste Deus. Antes pelo contrário, tenho a certeza que se todos nós nos
esforçássemos loucamente por ser como ele, refletir o seu caráter e viver como
Ele viveu, então este mundo já não seria o lugar sombrio, triste e absurdamente
malvado em que estamos a viver.