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domenica 25 luglio 2010

A minha história

Quero contar-vos a minha história. Quando era pequeno, como quase todas as crianças italianas da minha idade, recebi uma educação católica, o que compreendia as aulas de religião na escola primária, uma hora semanal de catequese (que nós crianças transformávamos numa bagunça capaz de levar as lágrimas até a catequista mais tenaz e bem-intencionada) e prestar serviço como acólito na igreja do meu bairro. Havia algo bonito naquela fé infantil e superficial, pelo menos havia uma senso de pertença e um ritualismo que dava um ritmo ao passar do tempo: no domingo, por exemplo, sabia que ia encontrar os meus amigos depois da missa; as procissões na Sexta-Feira Santa eram uma ocasião para sair à noite; a hora da catequese alongava-se numa tarde de brincadeiras com os amigos.
Quando os meus anos chegaram à dupla cifra, todavia, aos poucos começaram a surgirem as primeiras dúvidas relativas à existência, à fé, à sexualidade, à vida. Em suma, começou a rotular aquela enorme bola chamada adolescência, que ao avançar parecia arrasar tudo aquilo que eu pensava saber. As missas começaram a parecer-me um salmodiar sem significado, as aulas de religião na escola tornavam-se num debate em que preferia atacar o (pouco) que sabia acerca da fé cristã. Quando pensava em Deus, parecia-me um tirano distante, que não se interessava pelo género humano. Não me sentia culpado por não o procurar, falar mal Dele ou atacar asperamente tudo o que tivesse a ver com o Cristianismo. Ao mesmo tempo, os meus gostos musicais tiveram uma dramática mudança: comecei a ser atraído por heavy metal satânico, death metal e coisas afins. Achava piada fazer espiritismo caseiro com os meus amigos e desafiar tudo aquilo que sabia ser proibido e desaconselhado. E enquanto me portava assim, tinha dentro de mim a convicção de ser particularmente inteligente e de ter completamente razão naquilo que estava a fazer.
Não passou muito tempo, todavia, que a sensação que aquilo era errado e passível de consequências se apoderou de mim e me levou a mudar o rumo que a minha vida estava a tomar. Neste ponto, comecei a perguntar a mim mesmo o que tinha acontecido à minha fé. Quando pensava em Deus, sentia-me como um filho pródigo que não tinha coragem de voltar para casa por se ter distanciado demasiado. Comecei a ficar com medo que pudesse existir um inferno e que eu merecesse lá estar. Sem confessar a ninguém a minha ansiedade, comecei a ler uma velha e poeirenta Bíblia que tinha em casa, procurando nela um consolo. Todavia, parecia-me que a única coisa que conseguia perceber dela eram as palavras de condenação. Queria acreditar num Deus de bondade e perdão, mas a única imagem de Deus que conseguia ter na minha mente era a de um Deus irado e vingativo, que não queria saber nada de mim.
Podem achar isso esquisito, mas o medo deste Deus levou-me a procurar negar a sua existência, abraçando o ateísmo. No fundo - dizia para mim mesmo - há muitos ilustres pensadores que reduzem a religião a uma resquício de eras pré-modernas, a uma super-estrutura criada pelas classes que exploram o proletariado, a uma transposição das nossas aspirações terrenas numa dimensão transcendente ou a um condicionamento genético. Às vezes, procurava o sentido da vida nas alternativas à religião cristã, nas filosofias orientais que davam uma visão bem mais relaxada da vida e da eternidade (mesmo que tivesse que reincarnar, pensava, no fundo nem seria tão mau..). Mas ao mesmo tempo, continuava dentro de mim um latente desejo de Deus, este Deus que imaginava como o deus que Marjane Satrapi desenha em Persépolis.
Chegado à Universidade, estes conflitos acabaram por passar para segundo plano. Vivendo no mundo, segundo o código do mundo e cultivando aspirações terrenas, tentava abafar o sentido de culpa e as dúvidas que levava secretamente dentro de mim. Espiritualmente, dentro de mim tinha-se acumulada muito pó, feita de leituras erradas, de desconfiança, orgulho e indiferença. Este pó tinha formado uma crosta de amargura, que me levara a negar a existência de Deus ou, quando muito, a admitir que podia existir mas que não valia a pena perder tempo pensando nele.
Isto prolongou-se até que um dia de 2004 aconteceu algo que ainda agora não compreendo completamente. Naquela altura, estava em Portugal como estudante erasmus e tinha conhecido Arlete, uma pequena e bonita rapariga portuguesa que agora é a minha namorada. Conhecia-a há poucos dias, quando uma tarde vi na casa dela um livro com capa cor de laranja. A curiosidade levou-me a apanhá-lo e folheá-lo. Tratava-se de uma Bíblia.
Com ar trocista perguntei-lhe se era uma pessoa religiosa. Armado em arrogante e sabichão, comecei a expôr todos os meus argumentos racionalistas contra a existência de Deus. Disse que Deus não podia existir e que se existisse teria sido um Deus malvado.
Ela ouviu-me sem dizer nada. Eu gostava tanto de ouvir a minha voz que nem sequer reparei na expressão na cara dela. Deixou-me acabar o monólogo e, com voz doce mas ao mesmo tempo firme, respondeu-me iniciando com esta três simples palavras: «Deus é amor».
Sinceramente não me lembro o que é que ela disse a seguir. A única coisa que sei é que aquelas três palavras - que mais tarde descobri serem o versículo 4:8 da Primeira Carta de João - aquelas três palavras, dizia, mexeram algo dentro de mim sem que pudesse explicar o quê. Foi como se uma janela tivesse sido aberta num quarto que, por anos, tivesse estado trancado na escuridão e na humidade. Eram três palavra doces e, não sei porquê, dolorosas ao mesmo tempo, como se mexessem numa ferida que nunca se tinha cicatrizado. Era possível então que houvesse um Deus assim? Era possível que o amor, e não o caos e o mal, fossem o paradigma do universo? Era possível que este Deus desse ao homem a possibilidade de se redimir e de recomeçar a sua vida?
Depois daquela tarde, passei por momentos difíceis. Parecia que para ficar curado, devesse antes abrir a caixa de Pandora e lutar contra os fantasmas do passado. Lembro-me que, um dia, entre lágrimas, confessei a Arlete tudo o que tinha feito, falei-lhe daqueles erros da minha juventude, do sentimento de culpa que arrastava dentro de mim há anos, dos meus medos do inferno e da rejeição de Deus. Pela primeira vez, houve uma pessoa que parecia saber do que é que e eu estava a falar.
Comecei a ler a Bíblia, partindo do Evangelho de João. Decidi dar-lhe uma oportunidade, lendo-o não como um livro de filosofia mas como a história real de um homem chamado Jesus Cristo. Havia partes que não percebia, outras que eram tão lindas que me levavam a chorar.
Tantas coisas se agitavam dentro de mim. Podia Deus perdoar-me por todos os erros que tinha cometido na minha vida? Parecia que sim, que era por isso mesmo que Jesus tinha vindo ao mundo. Mas podia perdoar-me também por ter simpatizado com o satanismo, por ter feito espiritismo entre os amigos, por ter blasfemado e passado os últimos anos tentando fazer perder a fé àqueles que a tinham? Parecia que sim, que Jesus procurava mesmo os doentes e não os sãos.
Um dia - penso que foi no dia 20 de Fevereiro - cheguei ao fundo de mim mesmo. Era uma tarde de domingo de Fevereiro, uma daquelas tardes cinzentas e frias em que a periferia da minha cidade é triste e silenciosa. Os campos perto da minha casa pareciam dilatar-se naquela calma típica dos Domingos, que me trazia sempre uma sensação de vazio e desolação. Estava em baixo e confuso, era um daqueles períodos em que se navega sem saber qual é o rumo.
Lembro-me que naquela época ainda percebia muito pouco da Bíblia, de Jesus, do significado da sua morte. Praticamente, ainda não percebia nada.
Sozinho, comecei a orar. Não tinha mais forças nem vontade de lutar contra Deus ou de resistir à sua vontade. Disse-lhe que o reconhecia como o meu Deus. Só isso.
Como disse, naquela altura ainda não percebia muito, mas a partir daquela tarde o Senhor se encarregou de me explicar o que devia saber. Comecei a perceber que Jesus tinha morrido para pagar os preços dos meus pecados, que Deus quer ser um Pai de amor, que nenhum filho é demasiado pródigo para se arrepender e voltar para casa, que cada crente é um work in progress nas mãos do Senhor, que a minha vida tem um novo sentido, que é viver para realizar as obras que Deus planeara para mim ainda antes que eu viesse ao mundo..
Agora tenho vinte e oito anos. Passaram 5 anos desde aquela tarde de Fevereiro. Gostava de ter chegado a ser um cristão mais maduro e de ter evitado alguns erros que fiz no meu caminho com Jesus. Nem todos os momentos foram fáceis. Mas nunca, e repito nunca, me arrependi da escolha que fiz naquele dia. Até um só dia vivido em comunhão com o Senhor, mesmo no meio da tempestade, foi mais feliz do que todo o resto da minha vida passada.

Concluo com uma lembrança.
Era adolescente, tinha saído da casa às sete e meia da manhã para ir apanhar o autocarro que me levaria a escola. Era Janeiro, acho, e estava um frio de bater os dentes. Ainda estava a amanhecer e, enquanto olhava em direcção ao sol, no horizonte, que se elevava atrás das árvores e das casas, pensava: que bom seria se houvesse um modo de apagar a nossa vida, com todos os seus erros e pecados, e recomeçar tudo do início.. Anos mais tarde descobri que existe. E é a graça de Deus. Como disse o profeta Isaías: Perdemo-nos como ovelhas tresmalhadas! Deixámos o caminho certo para seguir a nossa própria via. Contudo Deus fez cair sobre ele os pecados de cada um de nós (Isaías 53:6).
Obrigado pela vossa atenção.